quinta-feira, 2 de junho de 2016

O prazer é todo meu


Escrevo isto para ti.
Acho que se pode chamar a isto uma carta.
Portanto, escrevo-te uma carta, esta carta.
A minha primeira carta.
De amor, bem entendido.
Podia muito bem te ter enviado um e-mail, mas não. Por duas razões: primeira, porque faço questão de te escrever pessoalmente, pelo meu próprio punho – assim sempre tens um pedaço meu, de mim; segunda - e esta é uma razão bem mais prosaica -, porque não tenho o teu e-mail.
Sabes, gostava de ser uma mosca (ou mosquito... ou coisa que o valha...), só para ver a tua reacção ao leres estas folhas soltas rabiscadas à pressa: estou mesmo a ver, depois da surpresa inicial, quase que aposto que dirás algo como “Mas que raio de brincadeira é esta?!” e “Esta gaja está completamente passadinha dos carretos”.
A tua mais que provável reacção, deixa-me que te diga, até tem alguma razão de ser.
É que eu não te conheço.
Ou melhor, nunca te fui apresentada. Ou me apresentei.
Porque conhecer, eu até te conheço. Provavelmente, e perdoa a imodéstia, melhor que ninguém, Se calhar, conheço-te melhor que tu.
Não acreditas?
Para começar, vejo-te todos os dias.
Mas não, não te vou dizer onde: isso tornaria tudo demasiado fácil.
Mas vejo, sim. Todos os dias.
À conta disso, até já sei o teu nome: Vasco.
E quando digo que te conheço, estou a falar a sério. Mas mais do que te conhecer, adivinho-te, sinto-te.
Já chamei a esta carta, uma carta de amor.
Mas não.
Enganei-me e permite-me aqui emendar o meu erro: esta não é uma carta de amor, é antes uma carta... de qualquer coisa ainda sem nome. Qualquer coisa profunda, que morde e arranha os cantos mais escuros e escondidos da alma e do ser.
Mas seja como for.
Primeiro que tudo e antes de mais nada, quero-te dizer olá.
Eu sou a Elisa.
Muito prazer.




domingo, 15 de maio de 2016

Vertigem


Vertigem. Respirar fundo. E esperar.
Esperar pelo apito, pelo maldito apito. Para tudo começar. Outra vez.
Os pontapés, a dor que de tão insuportável se tornava praticamente inexistente, perfeitamente olvidável e completamente ultrapassável. E se das primeiras vezes que aquilo lhe tinha acontecido, ainda se tenha perguntado porquê, agora já não fazia isso: já sabia melhor.
Todas as semanas ela experimentava a mesma... mesma... selvajaria, verdadeira brutalidade, autêntica tortura e desmedida agonia.
E no entanto, ela sentia-se algo parecido com feliz, completa e realizada: é que assim, não obstante as mazelas, havia um propósito, um intuito e uma finalidade.
Ela era precisa.
E também amada. Sim, ela sentia-se amada, pois ela bem sentia a imensa satisfação das pessoas e ouvia os gritos de deleite e prazer, suprema alegria.
É claro que também ouvia alguns impropérios e injúrias, mas já lhe tinham explicado que nada daquilo lhe era dirigido, mas sim aos outros intervenientes.
Quem lhe tinha explicado foi uma velha veterana daquelas andanças, ainda antes da primeira vez dela, quando se apercebeu de que ela era caloira, a estrear.
Mas mesmo com aquelas explicações todas, nada a podia preparar para o primeiro embate, o primeiro pontapé. E como ela era redonda, a dor, aquela dor agonizante, parecia que rodava dentro dela, atingindo-a em toda a sua plenitude.
Agora, já sabia o objectivo final daquilo, aquele jogo a que chamavam futebol, verdadeiro rastilho de paixões: metê-la a ela, bola, com os pés ou com a cabeça, dentro daquela coisa rectangular e rodeada de redes, com um homem a guardá-la, por vezes a fazer figuras muito tristes.
O que nem sempre acontecia.
Não obstante as inúmeras e frenéticas tentativas.
Na verdade, ela quase que sentia pena dos jogadores; mesmo apesar dos pontapés, a empatia era inevitável. Era como se ela, a bola, e eles, os jogadores, fossem um só. Pelo menos, durante o tempo do jogo.
Que estava mesmo a começar.
O árbitro ia apitar e novamente ela sentiu uma vertigem.









terça-feira, 3 de maio de 2016

Uma coisa cor de burro quando foge

O provérbio diz que “O sol, quando nasce, é para todos”, mas George Orwell[1] escreveu que “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”[2].


Alex tentou disfarçar as lágrimas que teimavam em querer cair dos seus olhos com uma força incontrolável, ao mesmo tempo que lutava, de uma forma quase inglória, contra uma avassaladora, arrebatadora e arrasadora vontade de chorar.
“Não posso chorar” era tudo o que passava pela mente de Alex “Não posso chorar, ou vão gozar comigo”.

Tinha sido sempre assim: toda a sua vida, desde que se lembrava de ser gente, aquele sentimento de não só ser uma peça de puzzle contínua e teimosamente fora do sítio, como também de desesperadamente querer encaixar, nem que fosse no sítio errado.

O seu nome, Alex, era, à falta de melhor palavra, apropriado.
Alex, um nome unissexo. Ou sem sexo.
Tal como Alex. Exactamente como Alex. Literalmente.

Alex não tinha sexo. Nem órgãos genitais, nem órgãos reprodutores.
Era completa e totalmente assexuado. Ou assexuada.
Sem género.
Sem gender[3]. Sem génos[4].
A-gender. A-génos.

Simplesmente tinha nascido assim.
Porquê?
Ninguém sabia.

Alex foi uma criança abandonada à nascença.
Mas Alex não culpava os pais.
Na verdade, até os compreendia.
Quem iria querer ser pais de uma criança sem género, sem sexo que a definisse?
Uma criança assexuada – uma aberração da natureza.

Essa característica – ou falta dela, dependendo do ponto de vista – tinha regido, ou melhor dizendo, assombrado toda a sua vida.
Por causa dela, Alex não tinha podido frequentar a escola.
Tinha tido aulas em casa. Ou orfanato. Ou lar de acolhimento.
Também nunca família alguma quis adoptar Alex.
Quer-se dizer, querer, até quiseram. Houve famílias que até mostram algum interesse. Mas mal tomavam conhecimento da singularidade muito peculiar de Alex, logo recuavam nesse mesmo interesse.

Enquanto crescia, como forma de combater a imensa solidão e dor que assolava e corroía Alex, começou a imaginar, mais do que isso, a sonhar que a sua… excentricidade significava uma evolução, o aparecimento de uma nova espécie, o passo seguinte da humanidade.
E Alex era o primeiro caso, pelo menos que se soubesse. Um caso pioneiro.

Mas mesmo isso não impedia Alex de se sentir a afogar, cada vez mais, nas areias movediças que representavam a sua existência.

Toda a sua vida se resumia a um grande ponto de interrogação, enorme confusão, infinita trapalhada.
O seu dia-a-dia era inundado das mais pequenas coisas que, para qualquer outra pessoa, eram de tal maneira irrelevantes, que se tornavam praticamente insignificantes. Por exemplo, sempre que tinha que preencher um qualquer formulário, quando chegava à famigerada questão sobre o sexo, paralisava: e agora, feminino ou masculino, já que estas eram as únicas hipóteses?... Também sempre que Alex tinha que ir a uma casa de banho pública, coisa que evitava ao máximo, parecia que o tempo ficava suspenso: homens ou mulheres?
Chegou ao ponto de Alex invejar, mas invejar a sério, todos os homens e todas as mulheres: esses sabiam quem eram, pelo menos a nível de género. Neste sentimento de inveja, Alex incluía também os transsexuais, pois esses também sabiam quem eram: podiam ter nascido no corpo errado, mas tinham consciência disso.
Mas Alex não tinha sexo. Era superior a isso. Ou inferior. Provavelmente inferior.
E então, a inveja. Mas não era uma inveja malévola. Não, era antes uma inveja… passiva.
Mas havia um pequeno grupo de pessoas de quem Alex não sentia inveja. Não, por esses sentia antes outra coisa: empatia. Os hermafroditas. Esses também deviam sentir o mesmo que assolava Alex. Só que, ao contrário de Alex que não tinha género, os hermafroditas tinham os dois, masculino e feminino.

Alex não tinha amigos. Nunca tinha tido.
Na infância, quando mais tinha necessitado e procurado, sempre o tinham perentória e ferozmente afastado, quiçá devido à sua… diferença.
Essa crueldade e indiferença ficaram gravadas a ferro e fogo na sua alma, de tal maneira que nunca mais Alex se atreveu a procurar qualquer outra forma ou tipo de contacto humano.
Desenvolveu uma espécie de carapaça, uma armadura, para defesa dos golpes que ainda tinha que enfrentar.

Uma das coisas que mais assustava Alex eram os pesadelos que teimavam em fazer-lhe visitas, sempre e cada vez mais indesejadas.
Quando Alex estava mais à mercê de quem ou o quer que fosse e sem quaisquer hipóteses de defesa, os pesadelos apareciam, saltando, sem apelo nem agravo, de sabia-se lá de onde.
Sempre à noite, quando Alex conseguia finalmente adormecer. Parecia de propósito: sabiam sempre quando Alex estava mais vulnerável e aproveitavam-se dessa mesma vulnerabilidade, ao mesmo tempo que se divertiam.
E Alex voltava a ver e a sentir o que tanto se esforçava para esquecer: os risos, os olhares de troça, os cochichos…

Alex também sonhava, mas não se atrevia a partilhar os seus sonhos.
Sonhava com um mundo mais tolerante, onde a diferença não fosse sinónimo de ostracismo.
Um mundo onde todos pudessem caminhar lado a lado.
Um mundo onde imperasse o respeito pela individualidade de cada um.

Anos mais tarde, soube que Alex começou apenas por ser um diminutivo carinhoso que os seus pais lhe chamavam, antes do nascimento.
Como os pais não pretendiam saber se ia ser menino ou menina, chamavam-lhe Alex, que tanto dava para um lado, como para o outro.
Alex: Alexandre ou Alexandra.
Mas eis que chega a hora do parto chega e Alex nasce, uma criança recém-nascida pronta e cheia de vontade de gritar “olá, cheguei” ao mundo.
E agora, Alexandre ou Alexandra?
Bem, na verdade, nem uma coisa, nem outra.
Alex, apenas Alex.
Nem menino, nem menina.
Apenas uma… coisa.
Uma coisa cor de burro quando foge.



[1] De seu nome verdadeiro Eric Arthur Blair, mas mais conhecido pelo pseudónimo George Orwell, foi um escritor e jornalista inglês (25/06/1903 – 21/01/1950).
[2] Livro “O triunfo dos porcos” (“Animal farm”), 1945.
[3] Palavra “género” em latim.
[4] Palavra “género” em grego.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A carta

“Caro Pai Natal,

Hoje, apetece-me escrever-te.
Não te sei dizer porquê.
Olha, hoje deu-me para aqui, o que é que se há-de fazer?...
Também, podia ser pior. BEM pior…
E, mal por mal, olha, antes assim.

Como eu estava a dizer, hoje estou com vontade de te escrever uma carta.
Não que eu seja uma criança - antes pelo contrário.
Até já sou bem crescidinha.
E, verdade seja dita, nem sequer sei mesmo se alguma vez acreditei em ti…
Estás a ver, enquanto crescia, na minha casa sempre se falou mais no Menino Jesus – ainda me lembro de, na noite de Natal, ir à Missa do Galo e beijar a imagem do Menino Jesus.
E sei que há muito boa gente que considera que tu não passas duma criação duma certa marca de refrigerantes, com o teu fato vermelho.
Ainda por cima, nem sequer é Natal.
Mas como já lá diz a canção[1], Natal é quando um homem quiser.

E como já aqui tive o cuidado de frisar, nem sequer te sei dizer o “porquê” desta missiva.
Quer dizer, saber, até sei.
Então, é assim:
Quando te escrevem, é sempre para pedir alguma coisa, seja para si próprio, seja para todos.
Por falar nisso, não achas engraçado, irónico até, que seja sempre na mesma altura, ano após ano, que meio mundo se pareça lembrar do outro meio mundo?
É uma grande… coincidência, não achas?
Mas é como te digo: só ouves e lês pedidos. Todos parecem querer alguma coisa. Desde os mais egoístas até aos mais altruístas.
E penso…
… E tu?
A ti, nunca ninguém parece oferecer nada.
Não, pois não?
Estou enganada?
Não estou, não é assim?
Pois, bem me parecia…

Mas agora, neste mesmo preciso momento, as coisas vão ser diferentes.
Pois eu não estou aqui para te pedir o que quer que seja.
Não, muito antes pelo contrário.
Estou aqui para te oferecer.
Sim, estou a falar a sério.
Também, vamos lá a ser sinceros, já não era sem tempo, não é verdade?
Afinal, se tu estás sempre a dar, agora chegou a tua vez de receber.
 E de receber o quê, perguntas.
E eu digo: descanso.
Tu mereces.
                       
                                                                                                          Atentamente
                                                                                                                 Eu”

Obs.: Conto com o qual concorri ao concurso “Um conto de Natal”, organizado pela Biblioteca Municipal do Sardoal





[1] “Quando um homem quiser”, letra de Ary dos Santos e música de Fernando Tordo, interpretada por Paulo de Carvalho 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A criada lá de cima

A criada lá de cima
É feita de papelão
Quando vai fazer a cama
Diz assim para o patrão:
“Sete e sete são catorze
Com mais sete são vinte e um
Tenho sete namorados
E não gosto de nenhum.”

No meio de tudo o que estava a acontecer, esta antiga rima infantil teimava em aparecer na sua cabeça, a rasgar-lhe os véus finos e quase transparentes, tecidos da forma mais complexa, da sua memória.
Tinha sido ela a descobrir o corpo.
Naquela manhã, havia música muito alta – aos berros, como se costuma dizer - a vir do andar de cima. Não podia ser a sua vizinha, pois sabia que ela estava de visita à família no sul do país. Então, imaginou que fosse a sua empregada – não conseguiu evitar um sorriso, quando lembrou as palavras no tom de voz, quase esganiçado, da vizinha, quando alguém se atreveu a sussurrar a palavra ‘criada’: “Eu tenho uma empregada e não uma criada. Quem tem criada, são os ricos. E eu não sou rica.”
Ela dirigiu-se ao andar de cima para pedir para baixarem o volume, mas encontrou a porta aberta. Começou a empurra-la para chamar e foi então que a viu, caída no chão da cozinha. Imediata e automaticamente, sem pensar em mais nada, dirigiu-se ao telefone e marcou “112”.

E pronto. Foi o que bastou. A confusão ficou instalada.

sábado, 18 de julho de 2015

Carta ao Amor

Meu caro Amor,

Desde já apresento as minhas maiores desculpas pelo meu atrevimento em me estar a dirigir a si deste modo, especialmente quando não o conheço. Nunca lhe fui apresentada.
E é mesmo esse o meu problema: não o conhecer.
Em 40 anos de vida, continuo sem o conhecer. Nunca tive esse prazer.
Conheço sim, uma sua parente: a Paixão. Essa, conheço eu até muito bem, pois é raro um dia em que eu não me apaixone. Seja lá pelo que for.
Agora, amar... Mas amar mesmo… Sentir o tal fogo que arde sem se ver…
Não.
E eu sinto a sua falta. Parece que falta uma parte de mim. E essa parte anda para aí perdida, à espera que eu a encontre. Só que eu não sei aonde procurar.
E sinto algo parecido com… saudades, será?..., o que torna toda esta situação ainda mais absurda, pois se eu não o conheço, como posso eu sentir saudades de algo que desconheço?...
Pois.
Não interessa.
Já me estou a desviar do verdadeiro assunto que aqui me trás.
Então, eu venho por este meio solicitar, encarecidamente, que entre na minha vida, pois eu gostava muito de o conhecer.
Ou então, que me indique o que posso eu fazer, para que possa vir a ter o sublime prazer de lhe ser apresentada pessoalmente.
Fico pois, na expectativa das prezadas notícias a respeito.

Atentamente



quarta-feira, 15 de abril de 2015

Lado a lado

Esta carta, missiva, sei lá mais o quê, é para ti e só para ti.
Tu sabes bem de quem falo e escrevo, tu sabes quem és.

É como aquela canção: For your eyes only[1].
Apenas para os teus olhos.

Nunca te vi. Apenas te ouvi.
Uma vez, estava à espera já nem sei de quem ou o quê, quando ouvi um riso e tudo à minha volta parou.
Um riso claro feito do cheiro da terra molhada depois da chuva, de chocolate, de mel e limão, de pores e nasceres do sol, de brisas frescas no Verão e mornas no Inverno, de noites estreladas e dias límpidos, de manhãs brilhantes e tardes ensolaradas, de água fresca de nascentes, de alegria e ternura, de raiva e dor.
Um riso feito música.
O teu riso.
Feito de ti.

Esse riso ficou comigo, dentro de mim, entranhado em mim.
Estou sempre à procura desse riso, continuamente, onde quer que vá.
Mas em vão.
Nunca mais o encontrei.
Nunca mais te encontrei.

Para colmatar essa ausência, imagino-te.
Dentro de mim, bem cá no fundo, nos cantos mais recônditos da minha alma, vejo-te.
Vejo-nos.
Lado a lado.
A caminhar de mão dada.
Tu perguntas-me para onde vamos.
Mas eu não respondo: apenas encolho os ombros, olho para ti e pergunto: “Isso interessa?...”
Tu olhas para mim, sorris e também não respondes.
Apenas continuamos.
A caminhar. Lado a lado.






[1] Canção interpretada por Sheena Easton e que faz parte da banda sonora do filme de 1981 com o mesmo nome – o 12.º filme da série James Bond.